É como seu eu quisesse um potinho de delicadeza, de tardes frias.
E quando eu abrisse o guarda roupa, a nostalgia estaria ali sorridente e as borboletas voariam e meu corpo ecoaria pelo quarto, invadisse a sala com um piano tocando ao fundo. No fogão, ali dentro do forno, a ternura pedia para que eu abrisse a portinha, e eu abri, e ela saiu deslizando junto a mim pela sala que já era quarto e cozinha mais o banheiro e rua e mundo. Eu era tudo. Nada mais era contorno. Nem corpo, nem fogo, nem lugar, nem tempo. Era explosão calma. Era alma.
Sabe um pontinho num labirinto? Ele sabe da dimensão do tamanho daquele lugar. Já andou, correu até tentou enganar a si próprio, mas não achava a saída. Enquanto não encontrava, brincava de castelinho na areia, dava cambalhotas, até criou amizade com algumas plantas, que sempre via pelo mesmo e repetido caminho. Além das paredes, que nem eram tão amigas assim. Que amigo é esse que deixa o outro preso? Mesmo assim, parecia que elas, naquele silencio absoluto, queriam ajuda-lo a achar a saída.
O sol apareceu e o pontinho abriu os olhos. Olhou as paredes a sua volta
- é pra ali.
E foi. Andava tão depressa, com a certeza na mão, freneticamente. Olhava paras as plantas como se fosse a despedida e, também, para as paredes, mesmo silenciosas e concretas.
A porta estava ali, o pontinho viu o outro lado e ficou ansioso. Quanto mais perto, mais ansiedade. Atravessou. E, finalmente, saiu.
- e daí?
Alma
A Ju Lins
A l ma
A l m a
A l m a
La m a
L a m a
Lama.
(biagio)
A discussão sobre a redução da maioridade penal volta a ser pautada pela mídia, sistematicamente, quando ocorrem crimes bárbaros. Em 2003, o assunto veio à tona após o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach e Felipe Caffé, na época com 16 e 19 anos, respectivamente. Entre os cinco participantes do ato infracional, um era adolescente, de 16 anos. Agora, a morte do menino João Hélio reacendeu a polêmica, também por envolver um jovem, sendo a mídia a principal responsável pela volta dessa discussão.
O comportamento da imprensa do Recife em relação a esse caso foi, primeiramente, o de reproduzir as notícias de agências nacionais. Logo após, o movimento dos jornais da cidade conferiu destaque às matérias de adolescentes envolvidos em delitos. O Jornal do Commercio publicou o editorial “Maioridade Penal” se posicionando a favor da redução, afirmando que ‘’pela legislação atual, o menor que participou do massacre do garoto será punido com apenas três anos num centro dito de ressocialização’’. Além disso, segundo a opinião do jornal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é solicito aos “menores criminosos”. Como no editorial, em algumas matérias é recorrente o ECA ser abordado pelo ponto de vista da aplicação em relação à criminalidade e não como instrumento para garantia de direitos.
Sem ter acesso a informações contextualizadas, a sociedade entra numa espécie de comoção nacional, incentivada por grande parte da mídia e apela para medidas imediatistas, como se a redução da maioridade penal fosse a forma mais “eficiente” de combater a violência, e não, a aplicação efetiva do ECA.
Por outro lado, houve matérias, algumas pautadas pelas entidades de defesa dos Direitos Humanos, que foram equilibradas em abordar a questão. Como a matéria ‘’Redução da maioridade penal’, do dia 27 de fevereiro, do jornal Folha de Pernambuco. A reportagem abriu espaço para um novo direcionamento de abordagem sobre o ECA, dando o sentido, não da impunidade, e sim, do cumprimento do mesmo. O próprio Jornal do Commercio, apesar de sair em defesa da redução, publicou seu editorial “Maioridade e racismo”, que menciona o estudo do Observatório Negro, entidade pernambucana que luta contra o racismo e em defesa dos direitos humanos, e traz um dado novo na discussão sobre a maioridade penal. Ele diz que a redução está diretamente ligada ao racismo, visto que a maioria de adolescentes internos em instituições publicas, e em situação de rua são negros. Além disso, o editorial faz uma retrospectiva histórica sobe o termo ‘’menor’’. ‘’Estudos sobre o racismo no Brasil mostram que desde a Lei Rio Branco, ou Lei do Ventre Livre, de 1871, o termo criança ficou sendo empregado para o filho das famílias bem postas, enquanto o termo menor tornou-se discriminador da infância desfavorecida “. Porém, apesar de dar essa informação, o próprio texto do editorial continuou a usar este termo.
Antes de ontem foi dia da mulher e eu tava com uma idéia de escrever alguma coisa relacionada a esse assunto... pensei, pensei e continuei pensando. Aí num dia desses na rua do lazer, paralelas às conversas de intervalo, continuei querendo ter alguma idéia. Enrolando para não subir para mais uma aula, fui comprar uma unidade de cigarro. Sempre compro unidades na barraquinha de Dona Margarida, às vezes penso duas vezes porque ela fala demais e eu fico sem jeito de por um ponto final na nossa conversa, e me atraso para a aula. Não que eu não goste das conversas dela... pelo contrario. A primeira vez que eu conversei com Dona Margarida eu tava esperando uma amiga atrasada, e para esperas longas e chatas o cigarro é um bom companheiro (porque com um cigarro você não fica com cara de ‘’estou esperando alguém sozinha, pelo menos estou fazendo alguma coisa’’). Daí fui à barraca daquela senhora, com cabelos totalmente brancos. Na verdade eu sempre tive vontade de comprar alguma coisa lá, via alguns amigos meus conversando com ela e notava um entusiasmo nos diálogos. E também me despertava curiosidade, aquela banca cheia de livros e cartazes de movimentos sociais. Fui comprar um cigarro e ela tava tendo aquelas conversas entusiasmadas com alguém, em uma das suas poucas pausas pedi um cigarro e ela continuou a falar. Peguei o cigarro, acendi, dei as moedas e ‘’ Não é minha filha?’’, tomei um susto porque nem escutando a conversa eu tava, então fui sincera ‘’, desculpa, não tava ouvindo’’, ‘’ eu tava dizendo que eu coloquei essas duas revistas aqui, uma com a capa de lula e outra de bush... quero mostrar o facismo de cada um’’. Apesar de não concordar completamente fiquei espantada... porque no meu preconceito de classe instituído fiquei surpresa com o teor da frase. Passada a surpresa, veio a vontade de passar horas conversando com aquela pequena mulher, de cataratas nos olhos, com faixas nas pernas por causa da filariose. Fiquei. Parecia que eu estava tendo uma aula de história, de política, de vida naquele lugar tão improvável e, talvez, com uma pessoa mais improvável ainda. Mulher e pobre. Apenas dona de uma barraca. E dá banho de consciência histórica e política, sabe de tudo o que acontece nos bastidores, acompanha de perto até as campanhas pro DCE da católica. Então desde daí que eu sempre compro cigarros
É aquela velha história de se querer homenagear, lembrar de alguém que seja cheia de significados e simbolismos. Essa é meu registro de admiração por Dona Margarida no dia da mulher. Por toda sua luta, sua dignidade e sensatez.
E uma coisa que eu me esqueci foi de dar parabéns a ela. Mas segunda-feira eu faço isso. E vou dá parabéns pra ela por ela ser.
Sim, não posso deixar de falar isso. A banca de Dona Margarida pode ser fechada, e esse é a única fonte de renda dela. Querem tirar a barraca dela de rua do lazer pra fazer uma frente mais bonita para a Universidade Católica de Pernambuco. Todas as pessoas que trabalham nas barraquinhas de lá fizeram uma reunião para garantir seus direitos e excluíram Dona Margarida disso. Enquanto isso, ela está à deriva sem saber o que fazer.
Já houve algumas iniciativas de ajudá-la, mas é bom que o discurso vá para a pratica.
Em tempos de inutilidade, tento escrever. Vejamos o que seria essa inutilidade... como assim, i n u t i l i d a d e ? Vamos imaginar uma bola dessas coloridas, que se vendem em praças e parques. agora imaginem ela gigantesca. Assim, muito grande, tão grande que as mãos não podem segura-la, e não se tem jeito de abarcar aquela superfície lisa. pronto? É assim que eu me sinto no mundo (pelo menos agora). Aquecimento global, redução da maioridade penal, vinda daquele tirânico de Bush ao Brasil (e o papa também), ultimo capitulo de Paginas da Vida, mais uma mulher assassinada no Recife, tenho que tirar um dinheiro no banco, fazer minhas pernas, as sobrancelhas, o que eu to fazendo aqui? , beber com os amigos, comemorar meu aniversario, Lula fala em aumento.........................................
Isso pode até se resumir numa construção de texto clichê, mas isso é realmente muito sério para mim, e acho que para todo mundo que não se abandona! E não se abandonar... não se resume a ficar casa,fumando maconha e pensando em suas próprias questões, achando que o social é balela. pelo amor de deus. Achando que ter o cuidado com o que acontece é só mais uma mascara para se co-viver.
O mundo, às vezes, me parece impraticável. como aquela bola enorme, de superfície lisa. Tudo do mundo chega tão fácil a mim e parece que eu não chego em nada.
Peraí, menino, vou fumar um cigarro.
juliana, páre.
pára e fica em casa. pára e arruma teu quarto. pára e fica contigo.
pára e fica em casa, repara na janela, nos pratos que se tem que lavar.
pára e arruma teu quarto, com todos os seus significados simbolicos. arruma livro por livro, papéis por periodo,
acha aquela saia de cetim que ha mil anos tu não ver a cor, tira a poeira de cima das albuns de fotos
fotos...aproveita para reve-las, aproveita pra te rever.
aproveita e fica contigo. entra em acordo contigo mesma, se destelhe, desfolhe, descasque, dispa, desfrute.
faz as pazes com a outra juliana, que tá aí miída e atrofiada.
e aí o céu fica mais colorido
tem vezes que preciso vomitar
se não eu engulo seco,se não enlouqueço
são palavras que estão escondidas em mim, não sei como expulsa-las
aí eu fico em crise
essas palavras são como espinha de peixe,milho de pipoca
vomito
vejo meu vômito,mesmo não gostando do que foi
fico feliz,saiu algo
Chegou em casa, a desolação parecia consumir-lhe as vísceras. Jogou a bolsa e as chaves, entrou no banho. Demorou-se, ela abraçava, alisava seus cabelos, parecia consolar a si mesma. Enxugou-se, trocou a roupa. No quarto escuro, os pensamentos eram mais claros, a melancolia, o desespero. Ligou o som, uma música triste, a angustia arrebatava a cabeça misturadas às lembranças da ultima noite, as lagrimas foram expulsas dos olhos como um corpo estranho. Um café, um cigarro, seus mais fiéis companheiros. A dor parecia estar nas paredes do quarto, pelo teto da cozinha. E o que restou foi ela e sua dor. Ela olhando pra sua dor e a dor olhando pra ela. Ela chorando e a dor rindo. Ela querendo livra-se da dor e a dor a perseguindo. Ela desesperada, arrasada, querendo o fim. E a dor incontestável, infinita...
Enquanto isso ele corria pela areia, prestando atenção em sua respiração. Sentias o suor escorrendo-lhe pela barriga e seguia seu itinerário: Do edifico rosa, até o branco de pastilhas.
A cama desarrumada que nem seus cabelos, olhava desacreditada a mancha de café espalhada pelo carpete. As lágrimas escorriam por suas bochechas e a garganta era seca de tanto gritar, esbravejar, berrar. O que tinha construído durante vinte anos de rotina enfadonha? Desconstruiu-se, aqueles velhos sonhos não lhe valeriam mais e nem filhos tinha... ”Afinal”, pensou, “em cima dessa minha desconstrução eu construí...a minha frustração”, e projeta toda ela em cima dele, tudo é culpa dele. Ele, ele, ele. Não o queria mais, mas não o querendo mais era como se ela própria se negasse. Ele, ela chegava a triste conclusão, tornara-se parte dela, parte que ela não queria mais. Jogara café nele tentando queima-lo, tentando manchar aquilo tudo, mas o que conseguiu foi manchar o carpete que ela olhava desacreditada. Enquanto ele corria pela areia, prestando atenção em sua respiração. Sentia o suor escorrer-lhe pela barriga e seguia seu itinerário: do edifício rosa, até o branco de pastilhas.
Era aquele pensamento, aquilo que a torturava e deixava-a mais feia e suja. Aquilo que a impedia de viver sem mas, que era uma espécie de prenuncio ou até mesmo uma mera paranóia.
O mundo tornara-se, até então, mais belo... Nuances de pessoas, os prédios, o céu ficando mais azul. Quando as palmeiras ficam mais cheirosas e conseguem incensar a cidade, é época de natal. Lembrara-se neste instante que quando pequena perguntava a mãe se ela sentia “cheirinho de natal”, e a mãe respondia ternamente que sim. Voltara da recordação e lembrou como é fascinante ser criança. E ficou com raiva de todos os adultos... Eles se acham tão espertos que são burros! Mas tão burros! E ela se achou burra e injustiçada, queria ser criança, suplicava a Deus, mas ele não a atendia.
Abriu a gavetinha e tomou quatro daquelas. Entardeceu e ela continuou sentada... olhando, olhando... estava a tal ponto de submersão que quando se deu conta estava num prédio, subindo e resfolegava. Perguntou-se o que estava fazendo, e perguntou de novo, mas não parava de subir. Abriu a ultima porta, o vento refrescava-lhe até a alma. Não sabia muito bem o que pensava e as lagrimas saíam quase que involuntariamente.
A tarde caía, hora que sempre achara triste, melancólica, até mesmo poética. Olhou a imensidão do céu rosa, azul, laranja... reparou as estrelas, todas elas. Aproximou-se do fim do chão e mirou os pequenos carros, as pequenas ruas, os pequenos homens... Neste momento nada de recordações, filmes da vida, músicas. Suspensa no ar, sentiu-se livre para nunca mais.
Juliana Lins.
um caleidoscopio onde os humanos se multiplicam
se perdem,se acham,numa peça complexa
de dialogos entrecortados,de cenas queimadas
de fluxos inconscientes refletidos no hedonismo
bocas que se beijam,linguas que se misturam,
sons eletrizantes,luzes giratórias,ar condicionado,liquidificador
são errantes que gostam de bom-gosto,não gostando do bom- senso...
mas o bom -senso perde seu sentido conceitual nessa confusão de barulhos
nessa coisa desvairada que é a vida
é como ligar o computador,é como ver um filme no vídeo,
é como cheirar coca,é como fechar a janela pro ladrão não entrar
pop arte,brega-pop,baskiá,techneira,
carimbó,neo expressionismo-surrealismo-dadaísmo-futurismo
marilyn moore,narcisismo, mangá,sexo grupal
papa-móvel,bat-móvel,fidel castro,neon,
travesti,simultaneidade,velocidade,colombia,
atomicidade,cancer,aids,tatuagem
freud explica
uma teia,
uma coisa que acontece dentro de um nó
cegos,eles estão cegos,perdidos
eu tenho pena deles,
o mundo não é mais mundo
será que algum dia foi?
pós-modernidade
pós-modernismo
pós-moderno.
juliana lins 26/05/05